A Simples Ciência

Aspectos Evolutivos da Resposta Imune

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Autor convidado:  Prof. Dr. João Henrique Corrêa Kanan – Professor de Imunologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

O que nos vem à cabeça quando se fala imunologia ou imunidade? Muito provavelmente mecanismos que nos dão proteção, principalmente os anticorpos. Mas proteção à que? Aos agentes infecciosos, certamente; aos microrganismos, isto é, vírus e bactérias que ameaçam a nossa vida. Na verdade, não fazemos uma discriminação formal, no nosso imaginário os microrganismos são ameaças em potencial à nossa saúde. Afinal, somos bombardeados diariamente com informações que nos induzem a pensar assim. Sabonetes hiperpotentes contra os “germes”, soluções fantásticas de enxágue bucal, pastilhas antissépticas, álcool gel nos mais diversos ambientes. Somos ameaçados diariamente por estes “vilões” microscópicos e não temos a mínima segurança que o nosso Sistema Imune seja capaz de nos proteger eficientemente. Estamos à mercê das doenças infecciosas. Mas será que esta paranoia procede?

Desde que passou a existir na Terra condições para a existência da vida e diferentes espécies de organismos se estabeleceram, se fez necessário o desenvolvimento de algum tipo de imunidade. Podemos imaginar, numa visão antropocêntrica, que naqueles tempos os organismos possuíam um comportamento “egocentrista”, ou seja, a percepção era de que havia o “eu” e os “outros”. Na luta por espaço, nutrientes e perpetuação de seus genes cada espécie procurou desenvolver mecanismos que lhe permitisse perceber e atacar o que era diferente de si, ao mesmo tempo em que criava mecanismos de proteção contra o ataque dos outros. Neste embate, o mais eficiente, o mais bem adaptado, era recompensado com a manutenção de sua existência e continuidade de sua espécie. A evolução de organismos unicelulares procariotos para eucariotos e destes para os multicelulares (as plantas e os animais) não mudou, em um primeiro momento, esta perspectiva. Fundamentalmente, o protocolo manteve-se o mesmo, uma vez reconhecida a presença de um organismo estranho os mecanismos de defesa devem ser acionados e o “invasor” eliminado. Ao longo da evolução vários mecanismos foram criados com este propósito, tais como peptídeos antimicrobianos, o Sistema Complemento, o Sistema da Profenoloxidase e a fagocitose. Um deles, os peptídeos antimicrobianos, é observado em todos os tipos de organismos, outros ocorrem numa diversidade muito grande de espécies como, por exemplo, o Sistema Complemento. O que os une é a capacidade de direta ou indiretamente levar a eliminação do organismo invasor, salvo, é claro, quando este possuir algum mecanismo que o proteja. Todos eles são de grande eficiência, mas desprovidos da capacidade de reconhecimento específico, ou seja, discriminar individualmente cada organismo estranho.

Contudo, observa-se ao longo do processo evolutivo, tentativas de geração de mecanismos de defesa mais elaborados, capazes de produzir receptores que apresentassem maior diversidade de reconhecimento, tornando a resposta imune mais eficiente e específica. Exemplos disso são as moléculas DSCAMs (Down’s syndrome celladhesion molecules) em insetos, FREPs (fibrinogen-related proteins) em moluscos e VCBPs (variable-region-containing chitin-binding proteins) em tunicados e cefalocordados. Importante notar que essas moléculas apresentam em sua constituição o domínio da imunoglobulina, estrutura padrão do anticorpo dos vertebrados. Esses eram, provavelmente, apenas ensaios da natureza para algo mais elaborado e complexo para a resposta imune, a chamada Resposta Imune Adaptativa.

Às vésperas do aparecimento dos vertebrados gnatostomados (com mandíbulas) apareceu na natureza um novo tipo celular associado à resposta imune: o linfócito. Esta célula, conjuntamente com o desenvolvimento de tecidos intimamente associados à ela (tecidos linfoides), tornou-se elemento chave para a resposta imune adaptativa. O linfócito reuniu em si três características que possibilitaram o rompimento com o padrão, até então existente, de resposta imune: 1) a produção de receptores de reconhecimento específico com capacidade de ampla diversidade; 2) memória imunológica de um determinado reconhecimento pela manutenção de clones de linfócitos; 3) secreção de moléculas reguladoras da resposta imune, as citocinas. Este conjunto de fatores proporcionou ao organismo não apenas um reconhecimento específico do invasor e uma memória desta experiência na forma de clones de células específicas, mas, também, a possibilidade de, pela primeira vez ao longo da evolução, ser tolerante a microrganismos que não demonstrassem ser patogênicos. Desta forma, iniciava-se uma nova era na relação entre os organismos, a facilitação do cooperativismo.

Inicialmente, a primeira experiência nesse sentido ocorreu nos peixes ágnatas, cordados sem mandíbula, como, por exemplo, a lampreia. Nestes organismos observam-se linfócitos que expressam um receptor de reconhecimento específico denominado de VLR (variable lymphocyte receptor), molécula estruturada em repetições de domínios LRR (leucine-rich repeat). Assim como os receptores de reconhecimento específico de vertebrados (anticorpo e receptor do linfócito T), a geração de moléculas com expressiva variabilidade de reconhecimento é baseada em mecanismos genéticos de rearranjo de DNA que propicia a que cada clone de linfócito apresente uma única especificidade. Entretanto, observam-se diferenças quando comparado com vertebrados gnatostomados, qual seja, a base da estrutura da molécula que não é formada por domínios de imunoglobulina e o fato da mesma molécula participar tanto da resposta humoral como celular. Embora haja indícios da sua existência em peixes, este é um modelo que não foi mantido ao longo da evolução.

Com o aparecimento dos vertebrados gnatostomados surge um novo modelo de imunidade adaptativa, ainda baseado em linfócitos, mas desta vez com dois novos tipos de receptor específico: a Imunoglobulina (anticorpo) e o receptor do linfócito T (TCR). Ambos são compostos por domínios de imunoglobulina, apresentando capacidade de reconhecimento específico aliado à ampla diversidade de reconhecimento. A exemplo do VLR, a geração de diversidade é garantida por um complexo processo de rearranjo genético quando são produzidos os linfócitos. Uma diferença significativa do modelo anterior é que a Imunoglobulina se associa exclusivamente à resposta humoral enquanto que o TCR à resposta celular. Por outro lado, foi mantido um conceito importante relacionado à resposta imune adaptativa, a existência de linfócitos secretores de citocinas como forma de regulação da resposta imune, ora direcionando para a eliminação ora para a tolerância.

Assim, o que se observa ao longo do tempo é o aumento da complexidade do sistema imune concomitante ao aumento da complexidade de interações que cada organismo estabelece com o seu ecossistema. Nesta perspectiva, não devemos encarar o aparecimento de mecanismos adaptativos de imunidade apenas com o olhar de uma resposta mais elaborada contra patógenos, mas também com a compreensão de que agora é possível estabelecer mais concretamente formas de cooperação com microrganismos que habitam frequentemente o interior do organismo.

Voltando a pergunta inicial, hoje é muito claro para a comunidade científica que a nossa existência e manutenção de um estado de saúde está, também, associado à convivência pacífica e cooperativa com centenas de espécies diferentes de microrganismos que habitam uma extensão considerável de nossas mucosas. Estes microrganismos nos fornecem moléculas indispensáveis à sobrevivência bem como estabelecem condições que ajudam a nos proteger dos microrganismos patogênicos. É tão clara esta compreensão que hoje um dos principais projetos da comunidade científica é voltado para o microbioma humano, programa gigantesco com o objetivo de caracterizar com detalhe as espécies e genomas dos microrganismos que habitam de forma “pacífica” e benéfica o nosso corpo e, assim, tentar entender melhor a sua importância na nossa vida.

Artigos para consulta:

Peter J. Turnbaugh, Ruth E. Ley, Micah Hamady, Claire M. Fraser-Liggett, Rob Knight & Jeffrey I. Gordon. The Human Microbiome Project. 2007. Nature, 449: 804-810.

Mick Bailey. Evolution of the immune system at geological and local scales. 2012. Current Opinion in HIV and AIDS, 7: 214-220.

Written by Cláudio Felipe

2012/10/18 at 13:04

O paradoxo do cientista moderno

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Tenho escutado com frequência, vindo de colegas pesquisadores, os termos “isso não existe”; “é charlatanismo”; “não é ciência”. Em muitos casos esses termos até poderiam ser empregados com certo embasamento mas, a verdade é, que na maioria das vezes são usados em contexto em que esse tipo de afirmação é mais uma questão de acreditar do que ter evidência de que tal coisa está realmente acontecendo. Explico:

Muitos pesquisadores confundem ausência de evidência com evidência de ausência. Não possuir evidências de que algo funcione/exista é muito diferente de possuir evidências de que algo não funcione/exista. A história da ciência está cheia de afirmações do tipo e de retificações quando a nossa limitada técnica de observar e medir o mundo é atualizada e nos permite evidenciar um efeito até antes “inexistente”.

O que acontece, na minha opinião – que para esse tipo de análise é bem leiga – é que, por temos uma sociedade que tem uma influência muito grande de religiões dogmáticas, nossa ciência ainda é muito contaminada por esse tipo de pensamento. Precisamos de segurança, temos a necessidade visceral de ter certeza e, nesse processo, mais acreditamos do que analisamos as evidências. Aqui nasce o problema: acreditar é uma questão de fé e não de ciência.

Isso acontece quando a ciência se separa da filosofia e paramos de refletir sobre o que estamos fazendo e o real significado do que as técnicas científicas nos apresentam. A evolução do pensamento filosófico nos trouxe a ciência moderna mas, paradoxalmente, a filosofia deixou de ser parte do processo científico e este se tornou algo isolado, desprovido de reflexão.

Vivemos uma ciência mecânica, voltada para volume de publicação e não qualidade, significância social e valor real para o conjunto do conhecimento humano. O processo científico se esforça em combater o pensamento desprovido de crítica, típico religioso, mas, ao mesmo tempo, é tomado de fé e dogmas. Precisamos abrir espaço para a filosofia e aprender a manter a mente aberta para avaliar os fatos de forma crítica e, assim, dar mais um passo em direção ao pensamento livre.

Written by Cláudio Felipe

2012/07/30 at 11:43

Crianças limpas, adultos doentes

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Sem dúvidas a melhoria das condições de higiene cooperaram para o aumento da expectativa de vida e reduziram drasticamente a mortalidade infantil. Esgoto encanado, água tratada, ambiente limpo para se viver são grandes avanços da sociedade moderna.

Um nível razoável de higiene é essencial para a qualidade de vida, mas também o é, um nível razoável de sujeira. O efeito da assepsia do ambiente sobre a saúde humana segue um curva em U invertido, ou seja, necessita um nível ideal intermediário para ter seu melhor efeito. Pouca limpeza é ruim, assim como muita.

Acompanhando a curva de crescimento dos procedimentos de higiene, temos o crescimento de alergias e de algumas doenças infecciosas: quanto mais intensas as práticas de higiene, maior o número de alergias na população. Existe uma teoria chamada Teoria da Higienização que prega que quanto mais limpo for o ambiente em que uma criança se desenvolve, maior a chance de ela sofrer de infecções e alergias ao longo da vida. A teoria parte do pressuposto de que a formação da resposta adaptativa do sistema imune (aquela específica, com maior capacidade de eliminar patologias) depende de contato prévio com antígenos e da produção de moléculas mediadoras (citocinas que são produzidas em resposta a infecções e contato com moléculas que não fazem parte do organismo) para ser eficiente. Dessa forma, crianças que tem pouco contato com “sujeira” teriam um menor amadurecimento do sistema imunológico e seriam menos eficientes para combater doenças. Em contrapartida, outros braços do sistema imune seriam privilegiados, facilitando respostas alérgicas.

Um comportamento característico da infância é explorar o ambiente usando a boca. Esse processo não é apenas uma “porquisse” de quem não sabe que o ambiente é sujo. É um comportamento adaptativo que permite ao sistema imune em desenvolvimento entrar em contato com inúmeros antígenos, fortalecendo as respostas protetoras às ameaças do ambiente. Para crianças é essencial se sujar, comer coisas do chão, colocar as mãos sujas na boca; a qualidade do seu sistema imune depende disso. Se explorar o ambiente com a boca e se se sujar fossem deletérios, esse comportamento não teria sido selecionado ao longo da evolução, muito pelo contrário, cooperaria para o desaparecimento dos indivíduos que o apresentassem.

Resolvi escrever esse rápido texto após me dar conta do número de propagandas de sabonetes bactericídas e da necessidade de manter nossas crianças limpas. Além disso, temos o querido doutor bactéria, para o qual tudo é perigoso e sujo.

Lembrem-se: nós temos um sistema extremamente complexo e eficiente para nos protege dos perigos do meio. Como qualquer sistema, ele precisa ser estimulado e treinado para funcionar melhor. Se não o fizermos, ele acaba achando outras coisas com as quais se divertir, como os pelos do seu gato, ou o pó do seu apartamento.

Written by Cláudio Felipe

2012/06/21 at 13:06

A era em que a simples e reconfortante ciência matou a inquietante filosofia

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Após uma noite muito interessante em uma mesa de bar, um dos poucos locais em que um “cientista” ainda pode mostrar seu amor pela filosofia sem ser repreendido pela falta do “paper” para justificar uma opinião, comecei a pensar sobre como a filosofia se encontra ausente do meio acadêmico, e como a ciência passou a ser uma questão de números (p < 0,05) e deixou de ser sobre o conhecimento e a discussão do mundo que nos cerca.

A ciência na sua essência costumava ser sobre desconstruir a visão dogmática instaurada pelas religiões e passar para uma forma mais dinâmica e estruturada de representação do mundo. No entanto, a necessidade de se estar certo sobre um resultado e o risco da crítica avassaladora, estabeleceram um contexto quase religioso na interpretação de dados. Passamos a exigir o uso de ferramentas matemáticas, pobremente equipadas para descrever o mundo biológico, com o intuito de padronizar o que realmente é e o que não passa de confusão experimental. Acredito que a padronização seja essencial para que a ciência seja confiável, mas me perdi quando essa padronização se transformou na forma de pensar do cientista, quando filosofar deixou de ser uma opção, quando a interpretação dos dados deixou de admitir extrapolações. Já ouvi pessoas dizerem que um fenômeno biológico não está ocorrendo porque o p (nível de significância) foi de 0,053. Me pergunto se essas pessoas pararam para pensar o que um p de 0,053 significa. Para quem não é da área, aqui vai uma explicação geral: significa que o resultado tem 5,3% de chance de ocorrer por acaso ( quando o p é de 0,05 se considera significativo, ou seja, quando a chance de ocorrer ao acaso é de 5%). Bem, algum ponto de corte deve existir para que os dados sejam reprodutíveis e confiáveis, mas com a noção de que a estatística é pobre para descrever o mundo biológico, e que seus cálculos se baseiam em probabilidades.

O conforto de um livro didático, de um artigo bem publicado, não isentam o investigador de questionar o mundo, de pensar, de se perguntar se a ciência é realmente tão idônea e se visões alternativas também não retém conhecimento útil e aplicável, pois a ciência é falha, restrita e fruto da interpretação humana.

Essas poucas linhas são apenas para lembrar que a ciência é apenas uma ferramenta para se ver o mundo, mas não é a única, e não retém a onisciência, afinal, seu objetivo não é ser apenas mais uma religião.

Written by Cláudio Felipe

2012/05/04 at 0:27

Publicado em Filosofia da Ciência

Sistemas Emergentes

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“Conhecimento empírico estático não existe.

O que existe é a necessidade de percebermos o caráter emergente de todos os sistemas.

Isso significa que devemos estar abertos a novas informações o tempo todo, mesmo que isso ameace nosso sistema atual de crenças e, portanto, nossa identidade.”

Retirado do documentário Zeitgeist Adendum

Written by Cláudio Felipe

2011/03/22 at 22:16

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IV Semana Acadêmica de Biomedicina

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Estou aproveitando o espaço do blog para divulgar uma iniciativa da qual eu já fiz parte. A Semana Acadêmica do Curso de Biomedicina da UFRGS.

Mais informações:  http://www.sabiomedufrgs.blogspot.com

Written by Cláudio Felipe

2010/08/26 at 9:17

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Mais um passo na jornada contra o HIV

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Prezados leitores,

Quando iniciei esse blog, tinha em mente, além de postar textos meus sobre divulgação científica, convidar pessoas que fossem destaque em suas áreas de conhecimento a participarem desses espaço. Hoje tenho o prazer de inaugurar a coluna de convidados do blog. Nada mais justo para essa ocasião do que começar com meu grande parceiro de discussões filosóficas Dinler Amaral Antunes.  O Dinler é bacharel em biomedicina pela UFRGS e mestrando em Genética pela mesma Universidade, trabalha com bioinformática na área de imunologia viral, tendo grande criatividade e conhecimento do assunto. Aproveitem esse texto, muito esclarecedor e de fácil leitura.

Mais um passo na jornada contra o HIV

A convite do meu amigo Cláudio Felipe, faço aqui um comentário sobre uma notícia que foi amplamente divulgada nas últimas semanas. “Descoberto anticorpo que anula 91% das cepas de HIV”, anunciava o Jornal Estadão (em manchete do dia 8 de julho) fazendo referência a uma publicação da revista científica Science, realizada na mesma data. Foram identificados três anticorpos, sendo que um deles – VRC01 – possui capacidade de neutralizar a maioria das variantes conhecidas de HIV. Sem dúvida foi uma importante descoberta, a qual traz um novo ânimo para pesquisadores que se dedicam ao estudo do HIV. Mas superada a empolgação inicial, em nossas cabeças permanece uma pergunta: E o que isso muda “na prática”? A luz destas novas descobertas, o quão perto estamos do desenvolvimento de uma vacina eficiente contra o HIV?

Para entendermos de onde “surgiram” estes novos anticorpos e para posteriormente imaginarmos a possível aplicação desta descoberta no desenvolvimento de uma nova vacina, devemos primeiramente fazer uma breve revisão de como ocorre a produção de anticorpos pelo nosso Sistema Imune. O Sistema Imune dispõe de uma série de mecanismos e tipos celulares, responsáveis por diferentes níveis de vigilância e defesa contra patógenos. Didaticamente, estes mecanismos podem ser divididos em Resposta Imune Inata e Resposta Imune Adaptativa. A Resposta Inata, conforme indica o nome, diz respeito a um conjunto de “medidas generalistas”, que serão aplicadas de forma imediata sem maiores distinções sobre os detalhes do antígeno contra o qual se está montando uma resposta. Aliás, o antígeno (“alvo”), não necessariamente será um patógeno. Qualquer “objeto estranho” – seja uma gota de tinta, uma resina, pólen ou um conjunto de bactérias – será certamente cercado, fagocitado e/ou degradado. A resposta inata é a resposta “padrão”: rápida e inespecífica. O que em muitos casos será o suficiente.

A Resposta Adaptativa, por sua vez, é muito mais elaborada. Ela só será desenvolvida após o primeiro contato com determinado antígeno (novamente, não necessariamente um patógeno) e montará uma resposta ESPECÍFICA para eliminar aquele alvo. Além de muito mais “poderosa”, este tipo de resposta permite a formação de memória imunológica. Ou seja, após o primeiro contato com o alvo, você estará com o arsenal pronto para enfrentá-lo novamente no futuro. Esta memória, que se desenvolve naturalmente após uma infecção e que irá prevenir infecções futuras, é o que se deseja alcançar através da vacinação.

A eficácia e a duração desta memória dependem das características do seu sistema imune e também da variabilidade do alvo em questão. Se vocês teve Caxumba ou Rubéola, por exemplo, está teoricamente protegido pelo resto da vida. Se você teve gripe, no entanto, não há garantias de que você não terá gripe novamente no ano que vem. Não é que no segundo caso você tenha sido incapaz de “montar uma memória”. Na verdade você montou a memória e deverá estar protegido contra futuros encontros com o vírus que te causou a gripe. O problema é que o Influenza, vírus causador da gripe, é altamente variável e os sorotipos (ou cepas) que estarão circulando no ano que vêm não são mais as mesmas que circularam no ano anterior. Contra estes novos sorotipos, seu “antivírus” talvez esteja desatualizado.

E qual a relação entre isso tudo e os tais anticorpos? Ocorre que as células produtoras de anticorpos, os Linfócitos B, fazem parte desta resposta adaptativa. Se você já teve Rubéola, por exemplo, (ou foi vacinado) seu sistema imune possui Linfócitos B de memória, capazes de produzir anticorpos específicos para neutralizar o vírus causador desta doença (Rubella virus). Mas como nossos linfócitos conseguem desenvolver anticorpos específicos para qualquer alvo? É a resposta desta pergunta, que nos permitirá esclarecer as questões abertas no início deste texto.

Os linfócitos B possuem um conjunto de mecanismos muito especiais, que permitem o rearranjo de algumas regiões do seu DNA. Eles literalmente “recortam”, “editam” e “colam” trechos do seu Genoma, justamente na região responsável pela produção de anticorpos. Este processo será independente e “único”, no interior de cada linfócito B. O resultado é que no momento da “leitura” deste DNA para a produção dos anticorpos, cada linfócito B possuirá uma “mensagem” diferente, e assim sendo, produzirá um anticorpo único! Embora existam alguns mecanismos de “segurança”, esta edição do DNA é essencialmente aleatória, e os anticorpos são produzidos independentemente do conhecimento de “seus alvos”.

Sim, você leu certo, a produção do anticorpo ocorre independente do alvo. O que acontece durante o primeiro contato com o antígeno alvo é que todos os linfócitos B já existentes no seu organismo tentarão “encaixar” seus anticorpos em alguma parte do alvo em questão. Se algum deles conseguir, mesmo que seja um encaixe “mais ou menos” (com baixa afinidade), então este linfócito entrará em expansão clonal (se divide em várias células idênticas) e seus clones iniciam o processo de amadurecimento da resposta. Este processo envolve nova edição do DNA, mas desta vez direcionada para aumentar a especificidade e a afinidade daquele anticorpo que já existia.

Apesar de todos nós produzirmos anticorpos e sermos capazes de “aumentar a eficiência” daquele conjunto de anticorpos do qual dispomos, não há garantias de que que todos teremos a disposição os melhores anticorpos possíveis para combater determinado vírus. E na definição “melhores anticorpos”, retornamos àquela discussão sobre a variabilidade dos vírus. Assim como o Influenza, o HIV também é altamente variável. Mesmo que um indivíduo tenha tido sucesso em produzir um anticorpo capaz de neutralizar um subtipo do vírus, na maioria dos casos este anticorpo não oferecerá proteção contra os outros subtipos que circulam na população. Dentro de cada subtipo existem variantes (sorotipos) e, além disso, existem os vírus recombinantes (vírus novos, formados por “partes” de vírus de diferentes subtipos).

Apesar de toda esta variabilidade, o HIV não infecta qualquer tipo de célula. Ele infecta preferencialmente células que possuem em sua superfície uma proteína chamada “CD4”. O vírus usa o CD4 como “porta de entrada” para a célula, se ligando especificamente a esta proteína e induzindo a fusão de sua membrana com a membrana da célula, o que permite a entrada de seu material genético. E é aqui que surge a vulnerabilidade, pois o CD4 é uma proteína bastante conservada (pouca variabilidade). Utilizando uma analogia velha e um pouco inapropriada, se o CD4 é a “fechadura”, e está sempre da mesma “forma”, o HIV não poderá ficar mudando muito a “chave”, pois do contrário, não conseguirá mais abrir as portas. Isso significa que todas as variantes de HIV deveriam ter uma região idêntica, ou muito similar, para interagir com o CD4. Esta região, por sua vez, seria um ótimo alvo para se desenvolver uma vacina.

De fato, um trabalho publicado na revista Nature em fevereiro de 2007 já descrevia uma região estruturalmente conservada na glicoproteína gp120 (a proteína que interage com o CD4) e pelo menos mais dois trabalhos (Nature 2009 e Science 2010) foram recentemente publicados, descrevendo a ampla ação neutralizante do soro de determinados pacientes. Mas o conhecimento acumulado nos últimos anos ainda não foi suficiente para se desenvolver uma vacina eficiente contra o HIV e isso ocorre sobretudo por dois motivos: Primeiro que a nossa metologia atual consiste em entregar a proteína (ou pedaços da proteína, ou mesmo toda a estrutura de um vírus “morto”) e permitir que o sistema imune de cada um produza os anticorpos capazes de neutralizar aquela infecção. É assim que funcionam a maioria das nossas vacinas, incluindo a da gripe. Esta é a única forma conhecida de “direcionar” a produção de anticorpos contra um determinado patógeno, uma vez que o processo de produção dos anticorpos é essencialmente aleatório. E eu lhes asseguro que se uma amostra contendo a gp120 for injetada em um indivíduo, ele certamente produzirá alguns anticorpos específicos anti-gp120. Mas novamente, não haveria garantia de que ele possuísse (ou fosse capaz de desenvolver, após maturação) um anticorpo capaz de se ligar justamente naquela região conservada da gp120. Em segundo lugar, uma vacina eficaz depende tanto da estimulação da resposta Humoral (produção de anticorpos) quanto da resposta Celular (ativação de Linfócitos T, capazes de identificar e eliminar células infectadas). A reposta celular também é estimulada pela método tradicional de vacinação, sobretudo quando a vacina contém a partícula viral atenuada (“viva”). O papel central desta resposta é eliminar as “fábricas de vírus” (células infectadas), pois uma vez que o vírus consiga invadir uma célula do hospedeiro ele estará fora do alcance dos anticorpos.

Concluída esta minha “breve” contextualização, vocês agora são capazes de imaginar como “surgiram” estes novos anticorpos. Eles foram desenvolvidos no corpo de um paciente norte-americano, portador do HIV. Provavelmente ele não foi o primeiro a produzir estes anticorpos (dado o número de recombinações que já foram realizadas durante a produção de cada linfócito B, em todas as pessoas infectadas com HIV desde seu aparecimento em humanos), mas a questão é que desta vez foi possível identificar estes novos anticorpos (que, sobretudo considerando o VRC01, eram ainda mais abrangentes que os descritos anteriormente), além de coletar deste paciente os linfócitos B responsáveis pela produção de tais anticorpos (utilizando como “isca” sondas artificiais baseadas na estrutura da região da gp120 que interage com o CD4). Realizada esta descoberta, foi possível fazer um “raio-x” (cristalografia de raio-x) da estrutura do anticorpo VRC01 ligado a uma gp120, permitindo identificar todos os detalhes de como e onde ele interage com a proteína do HIV.

O primeiro desafio agora, será manter estas células em laboratório, visando produção deste anticorpo em maior escala (para permitir mais estudos). O segundo desafio, muito maior do que o primeiro, vai ser conseguir aplicar este conhecimento no desenvolvimento de uma vacina. A dificuldade reside nos mesmos pontos já discutidos, começando pela questão de como induzir o sistema imune de cada indivíduo a produzir exatamente aquele mesmo anticorpo. Mas simplesmente produzir em laboratório um soro contendo grande quantidade deste anticorpo, não seria suficiente? Não. Se administrado em um portador de HIV, este soro provavelmente seria capaz de reduzir sua carga viral (quantidade de vírus no sangue) mas, conforme dito anteriormente, os anticorpos não seriam capazes de eliminar as partículas “escondidas” no interior das células do hospedeiro. Se administrado a uma pessoa que não possui HIV, este soro iria conferir apenas uma imunidade temporária, uma vez que a pessoa não possui os linfócitos B capazes de continuar produzindo tais anticorpos sempre que necessário.

Resumindo todos os pontos que foram apresentados, podemos dizer que temos bons motivos para comemorar os vários avanços que estão sendo realizados nas pesquisas sobre HIV. No entanto, esta é uma jornada longa e ainda é muito cedo para considerarmos que estamos próximos de desenvolver uma vacina eficaz. A prevenção, portanto, continua sendo nossa principal defesa contra este poderoso adversário que já matou mais de 25 milhões de pessoas desde 1980.

Dinler Amaral Antunes

Written by Cláudio Felipe

2010/07/21 at 10:19